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Daniela Velho

A proposta

Da compreensão à transformação vivida

Com o tempo, certas formas de nos relacionarmos com a vida tornam-se tão habituais que quase se confundem connosco. Podemos reconhecer que nos magoam ou pesam nas nossas relações e, ainda assim, vê-las regressar. Compreender a nossa história ajuda-nos a perceber como nasceram, mas nem sempre é suficiente para transformar aquilo que o corpo aprendeu a repetir.

O corpo pode viver quase sempre em alerta, como se alguma coisa em nós tivesse dificuldade em repousar. Podemos procurar no olhar dos outros uma confirmação que ainda nos custa encontrar em nós ou ter dificuldade em reconhecer e respeitar aquilo de que precisamos.

Quando as tendências habituais voltam a surgir, a presença sensível convida-nos a repousar no corpo e a permanecer com o que está a acontecer, sem seguir imediatamente o movimento habitual. Nesse espaço, podemos começar a relacionar-nos de forma mais livre com aquilo que sentimos. A experiência deixa de ocupar todo o horizonte e torna-se possível escutar para lá da resposta habitual. Podem então tornar-se visíveis possibilidades que antes não conseguíamos reconhecer.

Aquilo que sentimos e a história que o acompanha não esgotam a profundidade do que somos. Nesse reconhecimento abre-se uma liberdade mais funda, a partir da qual podemos responder à vida.

Borboleta de asas abertas e claras, pousada num ramo entre folhagem verde-azulada e apontamentos quentes

A presença sensível

A experiência como lugar de transformação

Esta proposta aproxima o trabalho somático da prática contemplativa através de uma orientação comum: permanecer em presença sensível com a experiência, tal como ela se manifesta no corpo, sem nos precipitarmos a mudar ou a explicar.

O corpo traz consigo a história que vivemos, mas não se esgota nela. Ao escutá-lo, podemos reconhecer o que nos condiciona e também o espaço que existe para lá das formas habituais de responder.

Aquilo que surge não define por inteiro quem somos. Quando isso se torna mais claro, abre-se uma relação mais livre com a experiência do momento.

Os quatro movimentos propostos a seguir aprofundam o mapa. Aqui, cada um deles é desenvolvido a partir da experiência do momento.

Sentir

O corpo como lugar de reconhecimento e apoio

Mão a percorrer suavemente ervas altas num campo

Antes de conseguirmos explicar aquilo que nos acontece, o organismo já se orientou perante a experiência. A respiração pode tornar-se mais curta e o corpo prepara-se para se aproximar ou afastar.

Estas respostas foram moldadas pelas relações e pelos contextos que atravessámos. O sistema nervoso continua a recorrer àquilo que, noutros momentos, ajudou a preservar alguma segurança.

Ao sentir directamente estas respostas, começamos a conhecer os padrões para além das histórias que contamos sobre eles. Aquilo que parecia fazer parte de uma identidade fixa revela-se como uma forma aprendida de responder.

Mas o corpo pode ajudar-nos a encontrar apoio no presente. Ao sentir o chão e aquilo que nos sustém, começamos a reconhecer que este momento não tem de repetir aquilo que a nossa história aprendeu a esperar.

O corpo traz consigo marcas da experiência vivida, mas mantém aberta a possibilidade de novas experiências.

Escutar

Permanecer presentes enquanto a experiência se revela

Mão pousada sobre rocha escura junto ao mar

Escutar pede uma pausa suficiente para que possamos reconhecer aquilo que está a acontecer enquanto continua a acontecer.

A experiência pode trazer sensações difíceis ou movimentos emocionais que ainda não compreendemos. Permanecer conscientes permite acompanhá-los sem precipitar uma solução e sem nos afastarmos daquilo que sentimos.

A presença cria uma relação diferente com pensamentos e emoções. Continuamos a senti-los, mas começamos a reconhecer o espaço que existe para lá da reacção imediata.

A escuta começa quando conseguimos permanecer connosco no âmago da experiência.

Reconhecer

A consciência que não fica contida naquilo que surge

Lago sereno rodeado de floresta com folhagem de outono

À medida que permanecemos presentes, a identificação com a experiência pode começar a abrandar.

Os pensamentos continuam a surgir e as emoções continuam a atravessar o corpo. Contudo, começamos a pressentir que a consciência que os reconhece não fica limitada por nenhum deles.

A história mantém a sua importância, mas deixa de definir por completo aquilo que somos. Esta abertura permite que pensamentos e emoções percam alguma da rigidez que os fazia parecer absolutos.

Quando a fixação abranda, a compaixão começa a surgir na própria forma como acolhemos a experiência. Daí nasce a possibilidade de responder de um modo mais ajustado ao momento.

O reconhecimento amadurece através do regresso. Tornamo-nos gradualmente mais familiares com esta abertura sempre que voltamos a ela.

A experiência muda continuamente. A consciência permite-nos reconhecê-la sem nos reduzirmos àquilo que surge.

Quando a identificação abranda, torna-se possível reconhecer que nenhuma história, emoção ou pensamento define por inteiro a experiência.

Encarnar

Quando o reconhecimento atravessa a relação e chega ao mundo

Pés descalços sobre musgo com folhas secas de Outono

Uma experiência de abertura ganha profundidade quando começa a participar na vida quotidiana.

O modo como nos tratamos modifica a forma como encontramos o outro. A compreensão da nossa experiência permite reconhecer com maior proximidade aquilo que também se passa em quem está diante de nós. A compaixão encontra expressão na relação e orienta a acção sem perder clareza.

A experiência do corpo acontece já em continuidade com o lugar: na terra que nos sustém, na água que nos atravessa, no ar que respiramos, no calor que nos anima e no espaço que nos acolhe. A natureza deixa então de ser apenas aquilo que nos rodeia e começa a ser reconhecida como parte da própria experiência de estar vivos.

Dessa experiência intima com a Terra nasce reverência. Encarnar é deixar que aquilo que reconhecemos tenha continuidade na forma como participamos na vida.

O reconhecimento torna-se real quando começa a transformar a forma como vivemos.

Continuidade

Um caminho que se aprofunda com o tempo

A transformação amadurece quando encontra continuidade e pode ser vivida em relação.

Regressar aos mesmos movimentos permite reconhecer novas camadas da experiência. Aquilo que inicialmente surge apenas por instantes começa a ganhar lugar na vida e a participar de forma mais natural nas relações.

A prática partilhada oferece um espaço onde este caminho pode desenvolver-se sem pressa.

Reflexo do céu e das árvores na superfície de água calma, entre folhagem verde

Um lugar de prática

Comunidade Transformação Profunda

A Comunidade Transformação Profunda é o lugar onde este percurso encontra maior continuidade.

Ao longo dos seus ciclos, regressamos à experiência corporal e aprofundamos a capacidade de permanecer conscientes junto daquilo que surge. O reconhecimento pode amadurecer e encontrar expressão na forma como vivemos.